“Pedi ajuda para pessoas da indústria da música mas ninguém me escutou. Tudo continuava como se nada tivesse acontecido” diz Lady Gaga a Vanity Fair Itália

Lady Gaga Brasil em 8.12.2016 ás 1:22    

A entrevista foi dada a Vanity Fair Itália, traduzida para o inglês pelo Lady Gaga Now e para o português pelo Lady Gaga Brasil.

Nesse álbum há muito sobre você e sua família, suas raízes italianas estão aparecendo completamente.

Eu me sinto profundamente italiana: a família do meu pai, Joseph Giuseppe Germanotta, chegou em Nova York de Palermo pela Ilha Ellis; sua mãe Angelina é de Santa Lucia Del Mela (província de Messina, na Itália). Esse álbum é um tributo a Joanne Stefani Germanotta, a irmã de meu pai: ela morreu com 19 anos nos Estados Unidos e essa tragédia afligiu minha família por gerações.

Por que você decidiu falar sobre isso agora?

Não foi uma escolha, foi uma necessidade. Eu e minha irmã Natali nos sentimos triste pela perda mas não entendíamos por anos. Algumas vezes eu me perguntava se realmente conhecia meu pai porque perder um membro da família te muda completamente. Eu cresci vendo os sentimentos nos rostos de meus pais e parentes e toda festa que se reuniam ao redor da mesa, como bons italianos, estavam sentindo falta dela.

Seu pai falava sobre essa perda abertamente?

Não, minha avó Angelina me contou sobre isso e minha mãe também. Quando perguntei pra ela: “Mãe, por que papai está chorando? Mãe, por que papai bebe tanto? Mãe, por que papai é tão bravo? Mãe, por que papai não vai a missa hoje?”, ela costumava responder: “Papai está passando por um momento difícil desde que ele perdeu sua irmã. Reze por ele porque sente essa perda tão profundamente que você não consegue entender”.
Hoje meu pai vem rezar comigo, ele segura minhas mãos e diz que temos que falar com Deus e ser gratos. Hoje meu pai não bebe mais, ele parou há 2 anos. Eu vi seu progresso para se curar e queria que esse fosse o objetivo do álbum: Contar para o mundo todo sobre essa experiência de perda e dor vivida pela minha família para ajudar aqueles que estão na mesma situação a passar por isso. Para atingir esse objetivo eu precisei me comunicar mais humanamente: não poderia ter letras por Lady Gaga, era necessário ter letras por Joanne, que é também meu segundo nome.

Eu li que seu pai é super protetor com você e sua irmã. Você acha que isso tem a ver com a perda dele?

Com certeza. Ele estava constantemente com medo daquilo acontecer de novo, uma tragédia daquele tamanho te faz sentir perdido. Por anos pensei que meu pai fosse zangado por minha culpa; quando éramos crianças podíamos sentir as emoções de nossos pais, mas às vezes isso era dolorido porque naquela idade você está vivendo o amor mais puro e só deveria pensar em ser criança. Enquanto cresce você está mais consciente e pronta pra dizer: “Pai, existe outro jeito, deixe os fantasmas irem embora, estou aqui e você pode me amar, seu trauma foi embora e você não precisa viver isso todos os dias”. Esse é o tema do Joanne: Eu aprendi a perdoar e sentir compaixão, não só pelo meu pai mas também por todos aqueles que não são capazes de passar por essa perda. Eu quero que minha mensagem te dê forças para passar por qualquer tipo de obstáculo.
Misturei folk, pop e country, um gênero que aprecio muito nos Estados Unidos, com o objetivo de chegar à todo mundo.

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2 meses atrás você declarou que sofreu depressão.

5 anos atrás eu estava sob pressão por conta do trabalho. Naquele período me separei do meu empresário Troy Carter. Seguiu-se um longo caminho para me curar e ainda não terminei, meu corpo ainda não se curou completamente de todo o trabalho duro e estresse de todos aqueles shows. Eu me sinto condenada a viver com essa dor crônica mas não quero compaixão: existem muitas pessoas com o mesmo problema, somos fortes e lutamos todos os dias para dar o nosso melhor. Recentemente fui diagnosticada com estresse pós-traumático, um transtorno psicológico que é difícil explicar numa entrevista. Pode ser causado por uma imagem, algumas palavras ou uma história que me lembre de todo o trabalho difícil que tive no passado e simplesmente fico em pânico. Eu vivo o trauma como se hoje eu estivesse na mesma posição de 5 anos atrás, mas não é igual, hoje eu estou aqui e tenho um time fantástico que cuida do meu corpo, do meu transtorno psicológico, da minha dignidade como mulher que está livre para decidir quando usar meu corpo. Hoje poderia estar bem mas esse transtorno psicológico não me deixa viver a realidade, dá medo.

O que te deixava assustada?

Durante a Born This Way Ball Tour eu estava muito assustada mas não sabia porque. Eu, de alguma forma, descobri que tinha algo a ver com meu cérebro, mas levou 5 anos e muitos psiquiatras para entender isso. Hoje estou aqui mas luto todos os dias. Com Joanne quero que as pessoas saibam que sou humana e não sou melhor que eles, mas não menos. Pessoas se inspiram em mim e é por isso que decidi falar sobre meu problemas.

Você acha que o assédio sexual que sofreu tem a ver com sua depressão?

Eu sofri com a depressão desde que era bem nova e o assédio sexual que sofri com 19 anos com certeza foi um trauma. Mas meu complicado estresse pós-traumático se dá mais pelo fato de que minha doença foi ignorada por anos. Durante a Born This Way Ball Tour expliquei para meu empresário várias vezes que estava doente; pedi ajuda para pessoas da indústria da música que trabalhavam para mim, ninguém me escutou. Ninguém entendeu quando ruim estava e que eu havia sido estuprada por um produtor. Não fui protegida e tudo continuava como se nada tivesse acontecido.

O show precisa continuar. 

Exatamente, todos querem continuar fazendo dinheiro e fingir que nada aconteceu. Se ninguém te escuta por tanto tempo, contudo, seu corpo e sua mente vão para alguma hora; e você não sabe mais quem você é, você não consegue expressar o que sente. Porque é uma doença mental e você fica literalmente paralisada. Eu quebrei meu quadril durante um show: quando acordei depois da cirurgia, meu empresário não estava lá e me senti menos amada. Para minha gravadora eu só era uma máquina de fazer dinheiro. Há algum tempo alguma coisa mudou na minha mente, é provado que algumas partes do cérebro são conectadas com algumas partes do corpo. Na minha mente, medo e pânico tem um forte e rápido impacto em mim, então se alguém fala de mim pelas costas, mesmo que seja uma coisa normal de se fazer, eu entro em pânico e reajo exageradamente. Acontece porque eu vivo toda hora a mesma falta de tratamento e atenção que sofria.

Nos últimos 5 anos você teve um relacionamento com Taylor Kinney. Ele te ajudou?

Sim, Taylor sempre foi muito amoroso e ainda é. Ele é um bom amigo e continua sendo meu amor. Minha família também ajudou bastante.

Ela para. Ela começa a chorar. 

Também todas as pessoas que trabalham comigo hoje. Mas foi importante me livrar do homem que estava controlando minha vida sem se importar comigo. Eu espero que contando essa história homens e mulheres de todas as idades se inspirem para se livrar de pessoas como ele. Entendendo sua dor, não estar com muito mesmo mesmo assim dói, abrace isso e lute: isso é o objetivo das minhas músicas.

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Até sua colega Adele admitiu sofrer de depressão. Vocês, particularmente, são pessoas sensíveis?

Sou muito próxima a Adele e todos os artistas que sofreram dessa doença. Uma profunda sensibilidade nos une porque para ser criativos nós analisamos emoções com uma certa atenção. Nós precisamos de compaixão e amor. Eu espero que eu, Adele e pessoas como Selena Gomez, que falaram sobre esse problema, sejam uma nova geração de artistas que nunca morrerá porque ninguém cuida de nós. Muitos artistas jovens trabalham duro e ninguém cuida deles psicologicamente: isso precisa acabar.

É difícil para os outros entenderem essa mensagem. Eles as veem como sortudas, lindas, ricas e famosas.

Dinheiro não faz as pessoas felizes. Eu viajei o mundo todo e nos lugares mais pobres vi as pessoas mais felizes: felicidade de verdade pode ser encontrada no amor, na amizade, nas relações humanas, nos esportes. Eu me sinto feliz quando dou amor para meus fãs, não quando mostro o que tenho. O mais importante, que é o que mais precisamos, é bondade.

Você já pensou em deixar a indústria da música por conta da sua doença?

Penso nisso todos os dias. Eu sei que em qualquer momento posso parar, ir para casa e ser feliz; mas aí eu serei infeliz porque não atingi meu objetivo: Eu tenho um forte relacionamento com Deus que me lembre porque estou aqui. A verdade é que me sinto mais como uma missionária do que uma popstar.

 

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