Semana ARTPOP: Especial de 2 anos

admin em 11.11.2015 ás 12:10     2Comentários

Há dois anos, nascia o terceiro álbum de estúdio de Lady Gaga. As expectativas eram grandes, os rumores não paravam, e os fãs não podiam esperar nem mais um segundo por mais um grande hit pop. ARTPOP, porém, começou bem antes disso. Desde que se recuperou de seu ferimento no quadril (a lesão ocorreu durante a última fase de Born This Way Ball Tour), Gaga se empenhou na produção e divulgação do álbum. Muito mais do que um conjunto de músicas, ARTPOP é um conceito. É a arte na frente do pop, é a obsessão, é o contrário da pop art de Andy Warhol, é a mistura perfeita de moda, tecnologia, sexo e arte em forma de sinfonia.

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Gaga nos introduziu ao seu novo universo de maneira gradual e planejada. Poucas palavras eram de fato ditas e pouquíssimo se sabia do que poderíamos esperar, mas aos poucos as ideias centrais começaram a ficar claras. A peruca de fibra óptica, divulgada ainda em 2012 no YouTube. As fotos promocionais, enigmáticas mas de estética impecável, que começavam a forjar na mente dos Little Monsters a identidade visual da nova era. As deixas eram várias, e tudo que saia da boca de Gaga (embora não fosse muita coisa) poderia ser uma pista sobre o que estava por vir. Tudo eram rumores, será mesmo que teríamos um novo álbum? Ainda havia quem pensasse na volta da turnê cancelada de Born This Way. Mas foi com duas fotos que finalmente respiramos o primeiro ar vindo diretamente do Monte Olimpo Pop que seria ARTPOP (embora, na época, não soubéssemos). Com duas fotos, Gaga entregava o título do álbum e o refrão da faixa homônima.

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Desse momento em diante, nada seria capaz de conter a sede insaciável pelo novo material. Tínhamos a primeira evidência palpável do próximo álbum e não descansaríamos enquanto não tivéssemos mais. A primeira foto oficial, que retratava Gaga com a máscara que se tornou icônica simplesmente se espalhou pelo mundo inteiro e logo não havia um Little Monster que se prezasse que não tivesse sua própria versão do acessório. Em agosto de 2013, Gaga aparecia em um vídeo para promover um projeto de sua amiga e mentora Marina Abramovic. Embora não fosse relacionada ao álbum, a produção trazia alguns elementos que logo nos seriam familiares em ARTPOP, como a performance e a nudez.

Vale destacar que a exibição do corpo na nova era de Gaga tem um simbolismo bastante expressivo. Está diretamente relacionado com a ideia de exposição, de deixar que as pessoas a vissem como humana, e não apenas como a “pop star maluca” que usa perucas coloridas e vestidos autômatos. Além disso, a nudez está ligada com a própria estética de ARTPOP, que embora bastante colorida, se mostrou bem mais limpa do que o visual ciberpunk anárquico do antecessor Born This Way. O ensaio para a V Magazine trabalhou bastante com a nudez e ainda trouxe ícones da música pop (Michael Jackson, David Bowie e Britney Spears) como inspirações dos looks que Gaga usou nas múltiplas versões daquela edição. Foi também nesse ensaio que tivemos um dos primeiros contatos com o visual da Venus, um dos maiores ícones da era. Assim, Gaga se colocava ao lado de alguns dos maiores nomes da música pop, misturando-os com arte, e ainda explorava um dos lemas da era: “I’m every icon“. Nesse sentido, a escultura de Gaga que ilustra a capa do álbum e a exposição de arte onde a cantora foi retratada em cópias de grandes quadros famosos apenas mostram o potencial de Gaga de explorar os conceitos aos quais se agarra.

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Todas as temáticas de ARTPOP estão ligadas e permeiam o álbum como um todo. A figura da deusa do amor simplesmente está impregnada nessa era. As conchas, as bolas de Jeff Koons, esculturas ao estilo grego, a moda “high-tech” são todos elementos que não estão presentes em uma faixa ou outra, mas sim no projeto como um todo. Afinal de contas, o novo álbum havia sido pensado como uma grande iniciativa transmídia, que traria um aplicativo para tablets, clipes para todas as faixas e, como sempre, estaria representado em cada passo, look e discurso de Lady Gaga. Cada manifestação da era é única e encerra em si seu significado, mas quando se olha para a obra como um conjunto, percebe-se que tudo está interligado e nada é por acaso. Se há algo que não se pode negar é que essa foi uma das eras que mais exigiram de Gaga em termos de produção. Havia muito material, muitos conceitos e um simbolismo tão vasto que um álbum com 15 faixas seria insuficiente para dar conta. Afinal, como todos já bem sabemos a essa altura, ARTPOP pode significar qualquer coisa; e isso não é só uma alusão à vastidão de significados incrustados no material, mas também uma referência ao importante papel do público no momento de resinificar as produções artísticas. Afinal, a arte é muito subjetiva.

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LADY GAGA IS OVER: A FILM BY HAUS OF GAGA e An ARTPOP Film foram grandes jogadas para continuar a apresentação do álbum ao público. Passamos a repetir “Stop de drama, start the music” como um mantra e também fomos introduzidos há um conjunto de imagens que representariam a era. É aqui que damos a primeira olhada na capa do single promocional Dope e a outros visuais que remetem a Gypsy e Mary Jane Holland. Mais uma vez, vemos o nu lado a lado com a moda, arte e tecnologia. Ao início de An ARTPOP Film há o convite “Experience the album, enter the universe of ARTPOP!”, seguido pela menção ao app do álbum, o empurrãozinho final para percebermos que ARTPOP seria uma experiência artística completa.

ARTPOP tinha tudo para ser o maior álbum pop do ano. As músicas eram dançantes, contagiantes, Dope era uma balada poderosa, e havia material de sobre para manter os fãs entretidos por muito tempo, seja passeando entre às várias produções de Gaga para a era, seja indo atrás das referências que te levam até grandes obras e artistas, seja da pintura, da música ou da moda. Os fãs estavam sendo inseridos no universo mitológico-futurista de Gaga aos poucos, uma bela estratégia para ir impregnando os Little Monsters com a vibe ARTPOP.

Em algum momento, porém, tudo começou a dar errado. Veio o lançamento do clipe do primeiro single, Applause (sendo que deveria ser Aura, mas a pressão da gravadora prevaleceu). A estreia no Good Morning America foi adiantada e acabou caindo junto de Roar, da Katy PerryO resultado, todos nos lembramos. Sua primeira apresentação após a cirurgia no quadril foi no VMA’s 2013, onde, apesar do boicote à performance, Gaga ainda conseguiu fazer uma bela homenagem à sua carreira. Aura vazou e quebrou a internet. Veio o iTunes Festival, onde recebemos de bandeja 7 músicas inéditas. Gaga estava entregando metade do álbum, mas não parecia tão chocante: as versões ao vivo eram modificadas e as melhores partes das faixas ainda eram desconhecidas. Gaga começou a lançar trechos das músicas no YouTube e logo já sabíamos o refrão da maioria dos hits. A gravadora Universal Records não compactuou com a ideia de lançar um clipe para cada faixa, e a Mother Monster teve que se virar para produzir o máximo possível. G.U.Y. An ARTPOP Film contava com 4 músicas no vídeo, e Dope ganhou uma filmagem profissional de uma das performances; como a música é bem crua, o improviso fez as vezes de clipe oficial e cumpriu o papel de emocionar. A artRave (VEVO Presents) foi um dos pontos altos, uma grande festa de divulgação do álbum, com direito a esculturas de Jeff Koons (contanto com a escultura original da capa). Na ocasião, Gaga apresentou o vestido voador VOLANTIS, desenvolvido pela TechHaus, e o aplicativo ARTPOP, que prometia ser a extensão digital do álbum. Ambos os projetos, infelizmente, não foram muito longe. A noite acabou, e ficou no ar um gostinho de “quero mais”. VOLANTIS nunca mais foi visto e o aplicativo demorou a ser lançado, não liberou todas as funcionalidades e por fim foi descontinuado em 2015.

Lady Gaga unveils a sculpture of herself by artist Jeff Koons during the ARTPOP album release and artRave event at the Brooklyn Navy Yard on Sunday, Nov. 10, 2013 in New York. (Photo by Evan Agostini/Invision/AP)

Desde aquela noite, houveram grandes lives. Gaga estrelou um especial do Dia de Ação de Graças ao lado dos Muppets, apresentou fantásticos lives ao piano de Gypsy e Applause, e acima de tudo, fez muito barulho na internet e no mundo pop. O SXSW Festival foi uma noite de explosão criativa e muita performance excêntrica e experimental, mas foi libertadora e mostrou muitos potenciais ainda adormecidos para a música de Gaga. A apresentação de Venus no X Factor teve de ser improvisada, com a pressão para performar Do What U Want, que havia se tornado single oficial de última hora. Ainda assim, nossa nova-iorquina favorita soube se virar e brilhou com simplicidade, apesar dos contratempos. O clipe de Do What U Want nunca foi lançado e se afogou em um mar de polêmicas. Os desentendimentos com a gravadora e os problemas com o antigo empresário com certeza prejudicaram muito uma era que era simplesmente promissora demais para ser real; mas que foi real e só não atingiu todo seu esplendor por conta das muitas pedras no caminho.

ArtRave: The ARTPOP Ball Tour chegou e foi um sucesso. A crítica adorou, o público adorou, o mundo inteiro adorou. A interação e o carinho de Gaga com os fãs foram notados e elogiados. O show de luzes, os looks ousados e as coreografias matadoras contagiaram a todos. O palco era uma atração a parte; brilhantemente planejado, completamente inédito, cheio de vida. A turnê era flexível, revelando novas vestimentas e uma setlist que sempre trazia alguma surpresa. O último show foi transmitido pelo Yahoo e a turnê teve um fim prematuro, apesar de todo o sucesso. Se o problema fosse apenas a divulgação do álbum, provavelmente estaríamos embalados por ARTPOP até hoje, afinal de contas, Gaga é um gênio do marketing e sabe improvisar. A constante insistência da mídia em suas falhas (muitas delas irreais) também era algo com o qual Gaga estava acostumada e poderia lidar. Faltava apoio da gravadora? Mais uma vez, a Lady meteu a mão no bolso e financiou por conta própria vários projetos da era. Mas o desânimo dos fãs e o isolamento que Gaga vivenciou durante a era, tendo que fazer tudo por si mesma, acabaram arrematando o fim prematuro de ARTPOP.  Enquanto Lady Gaga pôde levar o álbum pelo qual se apaixonou nos ombros, por mais que pesasse sobre seus ombros, ela foi em frente. Até que simplesmente não haver mais como continuar. Talvez ela própria tenha decidido deixar de lado os planos para a era e esteja guardando e reformulando muita coisa para o LG5. Quem pode dizer? Resta esperar e ver nossa Venus renascer em alguma forma completamente nova na próxima era pop.

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Fica a curiosidade e a vontade de ouvir as faixas não lançadas, que seriam disponibilizadas no aplicativo e no tão sonhado ARTPOP Act 2. Fica o embalo gostoso de Brooklyn Nights e The Greatest Thing, que deveriam ter sido lançados durante a era (uma no álbum de Gaga e a outra no álbum da Cher) mas que, ao menos, pudemos ouvir e ouvir até cansar. Fica pra outra hora a lendária faixa TEA, e fica pra próxima também a continuação de Telephone.

http://gagaimages.org

O saldo de ARTPOP, porém, foi positivo. Tivemos o imenso prazer de ver Gaga performar ao lado de Christina Aguilera, RuPaul e Elton John. Tivemos uma era com um visual estonteante, tivemos músicas para todos os gostos, tivemos a oportunidade de matar a saudade do pop da Mother Monster. O álbum não foi um sucesso de vendas, mas tocou os corações dos Little Monsters e nos fez respirar arte e exalar criatividade. Os problemas no meio do caminho serviram para Gaga aprender, e tenhamos certeza que ela aprendeu muito. Enfim, temos hoje uma Gaga mais madura após essa fase tumultuada, mais segura após Cheek To Cheek e mais versátil do que nunca com American Horror Story. Apenas isso é o suficiente para deixar no ar o que podemos esperar para a próxima era pop, quando ela chegar. Acima de tudo, fica a mensagem: We Belong Together! E continuaremos a acompanhar nossa cigana, rainha, deusa do amor, aonde quer que a estrada de tijolos amarelos ou o foguete nº 9 a levem.

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Comentários

  • So passei pra comentar msm…

    Gnt esse texto me representa *-*

  • gustavo cavacante

    Queria viver no tempo em que Aura foi single e nossa fã base não seria chamada de flop