SEMANA ARTPOP: G.U.Y., empoderamento e a indústria da música

admin em 10.11.2015 ás 12:00    

A fala que introduz a terceira faixa de ARTPOP apresenta a figura mitológica do deus Eros, divindade ligada ao sexo e descendente direta de Afrodite, a deusa do Amor. Tendo lugar logo após Venus, G.U.Y. continuará tratando do sexo, porém ao contrário do sentido místico da faixa anterior, agora somos remetidos ao prazer e à luxúria em sua forma pura. Lady Gaga convida o ouvinte a se acomodar e banquetear-se (as orgias romanas eram acompanhadas de suntuosos banquetes) enquanto a música abre caminhos para novos prazeres.

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No decorrer da música, repetidas vezes são feitas referências ao fato da cantora “estar por baixo e no comando”. Como a maioria das músicas de ARTPOP possuem várias interpretações, essa ideia central de G.U.Y. refere-se tanto ao momento do sexo, como a figura de Gaga na indústria da música, sendo considerada “flop” e ainda assim ter o controle da situação e de sua carreira.

Como ARTPOP estava planejado para ser um álbum que traria clipes de todas as faixas, o sentido da letra do terceiro single dessa era se completa com o vídeo lançado. Afinal de contas, a própria Gaga já disse que compõe pensando em todos os aspectos de apresentação das músicas, dos clipes até as performances.

G.U.Y. – An ARTPOP Film foi uma jogada de Lady Gaga para reagir às limitações de sua gravadora. Após perceber que não seria possível lançar videoclipes de todas as faixas do álbum ARTPOP, como havia prometido, a Mother Monster resolveu incluir o maior número de músicas possível em um único vídeo. Muitos fãs puderam matar as saudades dos clipes ao estilo “curta-metragem” de Gaga, ao estilo Paparazzi e Marry the Night. Há inúmeras referências no vídeo do terceiro single de ARTPOP, e aqui vamos apontar as principais delas. O Lady Gaga Brasil já publicou o review de um fã sobre o clipe, então nos deteremos agora em detalhes que não foram contemplados nessa primeira abordagem. Vale a pena (re)ler a análise do colaborador Lucas Alvarenga para uma interpretação mais completa do vídeo.

O primeiro ato do vídeo tem como tema a faixa homônima ao álbum. Vemos Gaga caída no chão, com asas, enquanto homens engravatados (que a derrubaram dos céus com uma flecha) se apressam para pegar várias cédulas que estão no chão. Quando os empresários vão embora, Gaga se ergue e luta para permanecer viva.

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Quem resiste a essa coreografia?

O simbolismo dessa primeira parte é bastante abrangente. A figura alada caída, também ela portadora de um arco-e-flecha, lembra a ideia do Cupido, uma figura da mitologia romana, equivalente ao deus Eros da mitologia grega. Outra possível interpretação é o personagem Ícaro, que forjou asas artificiais e, por voar muito perto do sol, as danificou e caiu no mar. A interpretação do “híbrido”, no clipe, pode ser uma alusão direta à figura dos semideuses mitológicos.

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G.U.Y. foi performada pela primeira vez no programa de David Letterman

Curiosidade: A peruca que Gaga usa enquanto representa o híbrido ferido é a mesma do visual Mary Jane   Holland; como a versão completa do clipe referencia a criação de ARTPOP, temos aqui então uma possível alusão ao vício de Gaga em maconha, que foi superado na nova era. Já a peruca platinada da Gaga renascida lembra o look Donatella; quem conhece a trajetória da estilista que hoje domina a marca Versace sabe que sua liderança foi colocada em dúvida em um primeiro momento, justamente por conta de sua figura exótica e por utilizar drogas.

Gaga chega, finalmente, ao Hearst Castle, localizado em cima de um monte. A arquitetura do castelo, junto de sua própria localização, lembra imediatamente o Monte Olimpo, local de habitação dos deuses gregos. O híbrido é carregado pelos guardas do castelo e saudado por seus habitantes, e então se inicia uma cerimônia funerária. Gaga é imersa na Neptune Pool; De lá, ela imergirá renascida como a deusa Venus. Vale lembrar que Venus, ou Afrodite, nasceu do mar, sendo recebida em terra por outras deidades, como a deusa da fertilidade e os deuses dos ventos.

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Após renascer em todo seu esplendor e ser recepcionada por Eros, Gaga mobiliza todos os habitantes do Hearst Castle para seus objetivos. Revivendo figuras histórias e isolando suas melhores qualidades através de amostras de sangue, Gaga inicia um processo de clonagem de “homens perfeitos”, que serão seu exército. A cena da clonagem é intercalada com movimento de dança bastante eróticos, dando a entender que os clones são fruto do amor e do desejo. Também é possível observar uma Koons Ball no processo de clonagem, remetendo diretamente à capa de ARTPOP e apontando para a mensagem que fica ao final do vídeo: o álbum é uma grande jogada contra a indústria predatória da música. Finalmente, com tudo pronto, Gaga invade um prédio empresarial e assassina os homens de negócios, substituindo-os por seus clones perfeitos. Mas esse é só o começo da jornada de Venus em direção a um mundo com mais amor. E é essa jornada que acompanharemos ao decorrer de ARTPOP.

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