“Ser mulher significa ser uma lutadora”, diz Lady Gaga em um artigo inspirador pela “Harper’s Bazaar”

Lady Gaga Brasil em 16.11.2016 ás 3:15    

Lady Gaga é a capa da edição de dezembro da revista “Harper’s Bazaar”, e em comemoração dos 150 anos de publicação, a cantora foi convidada para falar sobre qual é a representatividade das mulheres nos dias de hoje. Em um artigo intitulado “O retrato de uma Lady”, ela conta sobre suas experiências pessoais, relação com a família, produção do “Joanne” e muito mais. Confira esse texto inspirador:

 

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“Ao crescer, sempre me disseram que eu era uma rebelde. As pessoas diziam coisas como, ‘Você é provocante’ e ‘Por que você está vestida assim?’ Mas eu continuei a fazer o que eu queria e usar o que eu queria – porque claramente eu não mudei. Por muito tempo, porém, eu carreguei comigo uma vergonha. Eu sou uma italiana católica – cresci com muita culpa. Mas o que eu comecei a perceber foi que minha rebeldia, se você quiser chamá-la assim, é algo que foi passado para mim por uma longa linhagem de pessoas duronas – e mulheres duronas – em minha família.

Minha mãe e minhas avós são, sem dúvida, as forças femininas mais poderosas da minha vida. Minha mãe cresceu na Virginia Ocidental em uma família italiana. Seu pai era um homem extremamente trabalhador; ele trabalhou com seguros. Os pais da minha avó morreram quando ela era jovem, então ela teve de criar sua irmã. Ela realmente cuidou de tudo. A família do meu avô paterno veio da Itália através da Ilha Ellis. Eles moravam em Nova Jersey. Meu avô era sapateiro e a mãe de meu pai trabalhava com ele quando não estava em casa com seus filhos. Eles tiveram dois filhos. Eles perderam um deles – a irmã de meu pai, Joanne, de quem tenho o nome.

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Joanne morreu com 19 anos. Eu dei o nome do meu CD de ‘Joanne’ porque a presença dela sempre foi importante para mim. A melhor maneira de descrever meu relacionamento com ela é que é parecido com o relacionamento que alguém pode ter com um anjo ou um guia espiritual ou o que quer que você acredite ser um poder superior. Joanne morreu de lúpus, uma doença auto-imune, e pelo que sei da história da minha família, uma das razões pelas quais a doença pode ter piorado foi que ela foi agredida quando estava na faculdade. Ela foi violentada sexualmente e apalpada. Joanne faleceu em 1974, 12 anos antes de eu nascer, então eu aprendi sobre ela principalmente por histórias e fotos. Mas eu também aprendi sobre ela por meio da raiva de meu pai e vê-lo tomar um drinque todas as noites, e ao ver meus avós chorarem na mesa de jantar de Natal, quando ficou claro que havia um lugar vazio que eles queriam preencher.

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Para mim, Joanne era minha esperança e minha fé. Eu sempre senti que eu tinha alguém cuidando de mim, e eu pedia para que ela me protegesse. À medida em que eu envelheço, também me inspiro muito nela para ajudar a me entender. Eu pensei em Joanne enquanto eu estava assistindo as notícias durante a eleição sobre o escândalo em torno da gravação do Access Hollywood [na qual Donald Trump fala sobre ‘agarrar as mulheres pela b**ta’]. Aqui estávamos, em 2016, e o fato de que o tipo de linguagem que estava sendo usado para falar sobre mulheres estava em todos os lugares – na TV, na política – foi revelador. Eu me senti deprimida e magoada, porque esse tipo de linguagem faz isso. Então eu assisti a nossa primeira-dama incrível, Michelle Obama, falar em Nova Hampshire sobre o quão magoada ela se sentia vendo isso também. Ela falou sobre como as mulheres muitas vezes têm medo de dizer qualquer coisa porque estamos preocupadas em parecer fracas – que nos dirão que estamos exagerando, sendo dramáticas, emotivas. Mas não estamos. Estamos lutando por nossas vidas.

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Hoje, ser uma mulher significa ser uma lutadora. Significa ser uma sobrevivente. Significa ser vulnerável e reconhecer a sua vergonha ou sua tristeza ou sua raiva. É preciso muita força para fazer isso. Antes de fazer ‘Joanne’, fiz uma pausa. Fiz música com Tony Bennett. Eu fiz ‘Til It Happens to You’ com Diane Warren. Mas eu fui capaz de deixar de trabalhar tanto quanto eu fazia, o que era bastante abusivo para o meu corpo e minha mente, e ter algum silêncio e algum espaço. Eu queria vivenciar a música de novo como eu fazia quando era mais jovem, quando eu precisava fazer isso, em vez de me preocupar com o que todo mundo pensa ou ficar obcecada com coisas que não são importantes. A fama é a melhor droga que já existiu. Mas assim que você percebe quem você é e com o que você se importa, essa necessidade de ter mais, mais, mais simplesmente desaparece. O que importa é que eu tenho uma ótima família, eu trabalho bastante, cuido daqueles que estão ao meu lado, dou empregos para pessoas que amo muito e faço música que espero que mande uma boa mensagem para o mundo. Eu fiz 30 anos este ano, e eu sou uma mulher totalmente formada. Eu tenho uma perspectiva clara sobre o que eu quero. Isso, para mim, é sucesso. Eu quero ser alguém que está lutando pelo que é verdade – não por mais atenção, mais fama, mais elogios.

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Vejo minha mãe e a maneira como ela amou meu pai através de sua dor, e eu vejo minhas avós e o que elas passaram – as três são como um trio de força. Saúde, felicidade, amor – essas são as coisas que estão no coração de uma grande mulher, eu acho. Esse é o tipo de mulher que eu quero ser. Sabe, eu nunca pensei que eu diria isso, mas não é hora de tirar os espartilhos? Como alguém que os ama, acho que é hora de tirá-los.”

Lady Gaga

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